Hoje vou escrever uma cena qualquer sobre chibos.
O chibo é aquele gajo que nos lixou no 8º ano, quando nunca percebemos bem como é que o professor de química descobriu que cabulámos sem nos ter apanhado, é aquele gajo que nos lixou quando estávamos a fumar uma ganza atrás da escola e por obra e graça de espírito santo aparece um funcionário que nos apanha. Mais tarde, o chibo é o gajo que não nos permite ter uma box descodificadora de tv cabo.
Nem só há chibos maus, há também os chibos bonzinhos, que põem a boca no trombone e é ver malta como o Carlos Cruz a ir pelo esgoto.
Um chibo é como um bode mas com menos barba, um chibo, em condições normais é virgem até aos 37 anos, tem comportamentos desviantes quando está sozinho como por exemplo masturbar-se em cima das suas próprias fezes.
Os chibos não têm amigos.
A diferença entre um gajo normal e um chibo é que o chibo chiba-se mesmo sem ninguém lhe perguntar nada, não por ingenuidade mas porque não suporta que alguém de alguma forma e ao contrário dele tenha coragem ou astúcia para fazer algo que contorne qualquer tipo de sistema social, organizacional ou cultural.
Decidi então fazer um estudo intitulado “Um dia na vida de um futuro chibo”.
Problema: A vida de Gonçalinho aparenta não ter qualquer sentido. O sujeito
em questão é socialmente inapto, fisicamente abominável, mentalmente
medíocre, totalmente desprovido de carisma e confiança. Parece-nos que o
suicídio é a via com maiores probabilidades de ser tomada pelo sujeito
estudado.
Formulação da Hipótese: O número de horas ligado à Internet, adicionado ao
número de relações íntimas/ de cariz sexual partilhadas virtualmente é
inversamente proporcional à satisfação pessoal/ social mais a sanidade
mental (Para melhor compreensão da parte de eventuais sujeitos a investigar,
curiosos em sondar a sua própria situação: HLI+RSV=1/ SPS+SM). O resultado
final é sempre o mesmo: o suicídio.
No caso particular em estudo, propomos seis anos a contar da presente data (3 de Março de 2008) como o limite máximo de sobrevivência do sujeito. Nem tudo são informações objectivas, algumas conclusões são meras conjecturas. O perfil e a vida quotidiana do Gonçalinho, que se seguem, foram conseguidos através de uma cuidadosa observação (sem o conhecimento do sujeito), conversas com amigos, vizinhos, colegas e docentes universitários.
O Perfil do Gonçalinho: o Gonçalinho é um dos futuros engenheiros do seu país,
mais um desta geração pálida e exangue que se sucede a outra geração tão
pálida e exangue como ela própria. O Gonçalinho não é enérgico, não é dinâmico, não é criativo, não é forte, não é bonito, não é carismático, nem sequer é inteligente. Apático, ideológico e intelectualmente estéril, fraco, feio, mesquinho, estúpido, desprovido da mais pequena noção da sua verdadeira dimensão. E qual é a verdadeira dimensão do Gonçalinho? Nula!
O quotidiano do Gonçalinho: O Gonçalinho desperta pelas sete horas com a voz
estridente da mamã que o chama. Levanta-se, arrasta-se pela casa, com olhos
piscos e dirige-se à casa de banho. Olha-se ao espelho, passa os dedos pela
cabeça, alisando os poucos cabelos que ainda florescem naquele deserto de
sebo. Senta-se, depois, na cozinha onde come os flocos de cereais com fibra.
Mais tarde veste as roupas que a mamã escolheu e ouve com atenção as suas
advertências: “Não fales com desconhecidos, cuidado a atravessar a estrada,
não conduzas muito depressa, agasalha-te que à noite faz frio.”
O jovem Gonçalinho tem um extremo respeito pela sua progenitora, uma velha seca e enrugada, com um grande nariz avermelhado e dois olhos pequenos, cinzentos e sem brilho, como a sua alma. A velha senhora é professora primária e é o pior pesadelo das crianças suas alunas. Oito em cada dez crianças da sua classe julgam que a professora é uma bruxa e cinco em cada dez acordam a gritar no meio de sonhos tenebrosos com a professora, pelo menos uma vez por semana.
Após o pequeno-almoço, o Gonçalinho sai de casa e entra no veículo que
partilha com a mãe. À janela de casa a mãe e o pai, um homem calvo e obeso,
com demasiadas semelhanças com um ovo, observam enquanto o menino entra no carro. O pai tem grande orgulho no filhote. Entrou na universidade – e logo
no curso de informática! – é um rapaz ajuizado, não é como esses gandulos
que para aí andam. Temente a Deus, o Gonçalinho ama a pai e mãe e só merece o melhor. Por isso mesmo, logo no início do curso o pai foi à faculdade evitar
que o filho sofresse humilhações nas praxes. Falou com a “malandragem de fato
preto” e avisou-os logo: “Se tocarem no meu filho, faço queixa ao director!”
Ninguém tocou no Gonçalinho, mas o caloiro, gentilmente apelidado de
”Oleoso”, foi imediatamente tomado de ponta.
Assim que entra no carro, depois de ouvir os bons conselhos da mãe, porém, a
fisionomia do plácido Gonçalinho sofre uma drástica mudança. O sorriso
infantil de filho obediente desvanece-se, dando lugar ao esgar lúbrico e
terrível de quem é capaz das maiores perversões. Com os dedos compridos
esquálidos e brancos, compõe o penteado, algo como a popa do tintim, mas
descaída para a testa, e com grandes entradas. Na sua mente fervilham,
certamente, ideias sobre como impressionar as colegas e pensamentos obscenos
sobre as jovens por quem passa. Gonçalinho ainda é um homem com um objectivo, ou melhor, uma obsessão: Levar uma fêmea ao cinema! Agora que o velho amigo e confidente, o Sousa, o abandonou, o Gonçalinho está à deriva num mundo de dificuldades. Um mundo cheio de pessoas com quem é necessário conviver. E, para ele, é tão difícil conviver com as pessoas.
Gonçalinho acalenta o desejo de que as pessoas se tornem como os computadores, como o seu doce PC, o único a conceder-lhe um sorriso caloroso quando chega a casa, o único com quem conversa e o único que, segundo as informações de que disponho, recebe as suas carícias amorosas, nomeadamente quando Gonçalinho percorre a divinal Internet, em busca dos milhares de sites, onde fêmeas saudáveis e portentosas exibem os dotes que possuem, envergando apenas o trajo que as trouxe ao mundo. Gonçalinho deseja, mais do que tudo, que o mundo exterior seja tão simples quanto a Internet, que uma jovem pura e virginal lhe lesse no olhar a paixão que arde no seu interior, todo o amor que ele tem para dar. Mas não. Gonçalinho continua a viver um amor semi-platónico com o seu PC e o seu objectivo mantém-se inalcançável. Este objectivo, banal na vida de qualquer outro mancebo, atingiu para o Gonçalinho proporções de verdadeira vitória final sobre os seus detractores, sobre a sociedade em geral que o esmaga, o sufoca, o atemoriza. Essa é a sua demanda e, atravessar a sala escura de um cinema de mão dada com uma fêmea, o seu Santo Graal.
Enquanto o pequeno carro branco, no qual o Gonçalinho, de longas pernas, mal
consegue caber, se afasta na estrada, a mãe mantém, por detrás das lentes
grossas, uma atenta vigilância, não vá o diabo tecê-las e aparecer alguma
gandulagem a incomodar o seu menino. A vigilância é necessária para que a
nova vida do seu filho, agora quase um homem, aluno da faculdade, não venha a mudar. Há que tomar providências para que ele não se afaste da moral e dos
bons costumes, para que não pense em “porcarias”, para que não entre em
”antros de pecado” como as “discotecas” que abundam na noite lisboeta. A velha
senhora quer, a todo o custo, manter o seu menino puro, não admite que ele se
torne num desses que só querem “deboche” e diversão. “Como aquele”, pensa,
com toda a certeza, a mãe do Gonçalinho, ao ver-me, aqui à sua porta, a tomar
notas.
Na faculdade, Gonçalinho encontra-se com os habituais companheiros de conversa, também eles amantes da informática. De acordo com as informações que
conseguimos obter, segue-se um breve perfil desses colegas: Bruno, 32
anos, mede aproximadamente 1,80m e deve pesar 120 kg. É operador num call center. Vive em casa dos pais e foi um afincado jogador de Magic, aquando da invasão do país pelas cartinhas mais famosas do mundo.
Ninguém parece suportar a sua presença, excepto os seus pares. É muito feio,
não toma banho, não se barbeia, não comunica com pessoas fora do seu grupo a
não ser pelos canais de “chat” da Internet. Correm rumores de que é pedófilo
e colecciona fotografias de crianças nuas. Óscar, 20 anos, aluno de
informática. É quase calvo, raramente se barbeia, chega a usar a mesma roupa
semanas a fio, desconhece as regras mais elementares de higiene. Óscar é um
”trekkie”. O seu quarto, segundo nos constou, é um autêntico altar à USS
Enterprise. Ainda de acordo com informações facultadas por uma fonte próxima
do grupo, a experiência sexual mais marcante do Óscar foi um beijo roubado a
uma prima quando ambos contavam oito anos. Góinhas, 21 anos, estudante de
electrónica. Características físicas similares ao anterior, adepto fanático
de Magic. O seu quarto é decorado com imagens de sexo e violência retiradas
da Internet. Segundo informações recolhidas tem uma foto da personagem
”Machine”, do filme “8mm”, na sua carteira. Não nos foi possível confirmar a
veracidade desta informação. Francisco, estudante de informática.
Diz-se que é um espectador assíduo de pornografia Sado – masoquista e que tem
frequentes sonhos eróticos onde figuram a mãe e a avó. Conta-se que o seu
maior desejo é arranjar coragem para contratar uma prostituta.
Conclusão provisória: Após dois meses de atenta observação, a hipótese
formulada parece ter probabilidades de vir a comprovar-se.
Nota: Tenho a ligeira sensação que este relatório tem grandes hipóteses de ser rejeitado como tese, talvez por ser “pouco objectivo”. Tenho de rever os meus projectos de um dia vir a ser alguém. O melhor é esquecer a psicologia. Talvez deva mesmo escrever um livro!